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“Eu posando, com avental
usado na aula”

Tintas e pincéis exercem sobre a criança um fascínio ímpar.Através desta atividade podemos alcançar o mundo fantástico das crianças, que mesmo sem perceberem, por elas é exteriorizado. Venho aqui tentar colocar um pouco de tudo que aprendi, tendo convivido com elas durante tanto tempo.

Conhecendo alguns ateliês destinados a desenvolver esta atividade, percebo que o aluno está  muito mais dirigido a fazer cópias de paisagens em fotografias ou figuras de natureza morta.  Os grupos são pequenos e pouco dinâmicos, na maioria das vezes com material inadequado:  óleo com  diluente thinner,sobre tela, material dispendioso e tóxico não deixando a criança à vontade na manipulação do mesmo.

“Alunos deitados na grama de barriga para baixo”

Ao terminar o Normal, hoje magistério, fui assistente de uma professora de pintura e desenho infantil para crianças. Com este trabalho, percebi que a professora tinha tendência a pré-estabelecer cores e formas.  Muito mais enfocadas em resultados “artísticos” do que no processo de desenvolvimento da criança,de sua personalidade e de seu potencial criativo. 

 O desenho infantil pode ser ingênuo e singelo.  Com simplicidade, a criança munida de material plástico, participa a terceiros o que foi captado por ela. As formas que uma criança pode captar dentro de um formato complexo impressionam pessoas exigentes dentro da área das artes plásticas. A criança, sendo imediatista e desprovida de críticas, consegue se expressar de forma ímpar.  É comum artistas plásticos inspirarem  seus trabalhos em propostas infantis. Thomás Ianelli dizia que não era fácil buscar a ingenuidade infantil tanto usada nos seus trabalhos. Picasso também menciona a atividade plástica infantil com bastante enfoque. Volpi e Miró trazem em muitas de suas obras sinais simples e singelos, próprios da infância. 

Clique nos trabalhos infantis, para melhor visualizar os detalhes.

“De pé com um dos
pés na cadeira”


Aos pais e aos professores, cabe a tarefa de apreciar o trabalho infantil dentro do seu momento. Para as crianças pequenas, primeira infância, a garatuja (rabiscos) é importante dentro do seu pequeno mundo. Fornecer material  para que ela aconteça, se faz necessário, a fim de  prepará-la para as próximas etapas de vida. Achar desperdício fornecer material é um equivoco que pode fazer com que as etapas seguintes fiquem aquém do esperado.

Para um melhor desenvolvimento do futuro cidadão. Na área de pintura e desenho infantil, o “professor” nada mais deve ser do que um orientador, com propostas e técnicas novas. Enriquecendo desta forma  o potencial criativo das crianças.
No início das atividades, a criança executa desenhos pré-estabelecidos.  O coordenador aos poucos  começa a propor novas técnicas e ela vai percebendo que pode colocar no trabalho formas e cores fora do padrão conseguido até então.  Dando vazão as fantasias.  Na colagem, a criança monta uma composição de figuras, criando um desenho para que elas passem a fazer parte de um todo, mesmo que este pareça ser desconexo, a união em uma base de apoio se faz necessário.

“De pé com um dos
pés na cadeira”

Cabe ao orientador ajudar a fazer a criança perceber que o desenho e a pintura têm o privilégio de não obedecerem a formas e cores padronizadas.
Casinha, menininha, barquinho, árvore com maçãs, borboletas, trenzinho, montanha com sol, são padrões de desenho pré-estabelecidos. São desenhos que não foram vivenciados, que na maioria das vezes, não fazem parte do mundo da criança. No entanto se propormos para a criança desenhar aquela árvore ou a sua casa, o desenho passa a ser individualizado, cada criança vai desenhar da forma que mais lhe aprouver.

“Modelo do natural, parafusos”

Infelizmente, o desenho e a pintura infantil ainda hoje, são ensinados e não vivenciados, resultando em um aprendizado, onde cores e formas obedecem a um padrão de estética.O processo de desenvolvimento da criatividade do aluno  nada tem a ver com obediência a modelos padronizados.

"É só continuar namorando"

A criança pode se colocar por inteiro em um trabalho plástico.Não tendo auto-critica, sua personalidade é livre de conceitos e padrões - ela está se formando. O adulto deve ter muito cuidado ao apreciar um desenho infantil. Sem perceber, ele pode estar conduzindo o desenho para o mundo real, completamente dispensável no trabalho plástico do mundo infantil.

“Professora na cadeira de praia com chapéu de sol”


A criança vive a realidade na escola, na sociedade, na educação básica que recebe dos pais. Seu mundo de fantasia é deveras extenso e é importante  exteriorizá-lo.  Com lápis, tintas e pincéis, ela poderá fazer com que essa fase da vida seja mais tranquila. Através do desenho ela coloca seus medos, desconfianças, fraquezas e inseguranças, numa idade em que tudo é novidade e o desconhecido lhe é sempre imposto.

A oportunidade da criança vivenciar formas, faz com que ela crie autoconfiança na sua produção, percebendo também as infinitas formas ou  figuras que a cercam.
“Sentada na grama”


Ao administrar uma aula, não devemos dar nome aos bois. O orientador deve deixar a criança sozinha a decidir que cor vai ser usada. Se o orientador perguntar que cor ela usará para pintar o céu, automaticamente ela dirá: - azul. Não designando a figura  ela pode dizer: - rosa. E o “céu” rosa passa a existir para ela.

A partir das novas formas e estilos de se expressar, o mundo da fantasia  passa  ser uma realidade própria daquele momento. Seu subconsciente se expressa, libertando-as de medos e desconfianças próprios da idade.

Na pintura e no desenho, a criança coloca seus desejos e sonhos, cria seu desenho sentindo-se segura dele, visto que as formas foram por ela imaginadas ou vivenciadas, tornando aquele desenho uma produção única e individual. A criança, ao passar pelas etapas de amadurecimento, estará também vivenciando frustrações.No trabalho plástico, estas etapas se exteriorizam.

Cada criança capta o que lhes é transmitido de forma diferente.Não havendo preocupação quanto a perspectiva e comparações proporcionais, qualquer modelo que lhe agrada serve para ser interpretado.

Um abajur se encontrava sobre a mesa. Alguns parafusos foram distribuídos.  As crianças escolheram o objeto de desenho. Desta forma estarão estimulando a observação. 
“Modelo do natural, abajour”


Uma boa maneira de conduzir a capacidade de criatividade da criança é propor temas para serem desenvolvidos.
Meu almoço, tocando violão, pescando, sentada na mesa, consertando a rua, jogando bola, dentro do carro.etc. Elas vão memorizar estes momentos, e vão expressá-los no papel. O detalhe de cada desenho é bastante distinto, mesmo que duas crianças optem em desenvolver o mesmo titulo.

Fui coordenadora no trabalho de crianças no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. Aproveitava a situação de estar em um grande parque. Várias vezes saía com as crianças para que escolhessem algo para desenhar. Certo dia, percebo que dois alunos se sentam e começam a desenhar o casal de namorados que se encontrava logo ali. - Moço, a gente pode desenhar vocês? É só continuar namorando.
“Tocando violão ”


Elogiar demais uma criança pode deixá-la com responsabilidade de produção excepcional. “Criança que é considerada artista consumada antes de completar seu desenvolvimento normal, fica sobrecarregada de produção excepcional” podendo desta forma, bloquear  um desenvolvimento normal. (Arte infantil na escola primária – Dinoráh do Valle)

É comum as crianças fazerem trabalho sem concentração alguma, fazendo pouco caso do material. Cabe ao professor perceber que aquele momento é importante para ela: emoções estão sendo liberadas.

 

A cópia de desenhos já existentes como Turma da Monica e Snoopy não deve ser estimulada. A criança deve ser esclarecida que aquele desenho é de outras pessoas e ela está copiando. Aos poucos, ela vai percebendo que poderá fazer desenhos que sejam só dela, buscando satisfação nas suas pequenas iniciativas. No desenho isto acontece com bastante frequência, a auto-estima se desenvolve.

Gosto de trabalhar com a tinta PVA látex, sobre cartolina branca.  As crianças conseguem se expressar melhor no trabalho, devido à rapidez de secagem da tinta, que é à base de álcool.

 

Acho a tinta látex PVA muito apropriada ao uso infantil ( crianças entre 6 e 12 anos) é uma tinta com boa aderência sobre cartolina, ótima elasticidade, e de secagem rápida por ser a base de álcool. Ótimo custo beneficio, deixa a criança mais a vontade na confecção de cores. Não é lavável sobre o tecido, daí a necessidade de se usar avental.  A faixa étaria é bastante diversificada, dentro de um mesmo grupo de crianças, patotas não são formadas com facilidade, cada trabalho é individualizado. As crianças se sentam em uma única grande mesa, a socialização se dá de forma casual. 

“Modelo de cabeça para baixo ”


A criança olha o trabalho ao lado e, assim sem mais nem menos, dá seu palpite e faz sua avaliação. A criança que recebe a avaliação se comporta de uma ou de outra forma. A crítica pode fazê-la perceber no seu trabalho algo que não havia percebido antes. A crítica pode ser construtiva ou não.  As duas vivências são importantes.

“Passarinho palhaço ”


- Adriana: Esta menininha que você fez está tão bonitinha. Se eu fosse você faria ela maior !
- Posso tirar idéia do seu desenho. Achei ele tão bonito. Não vou fazer igual. Só parecido.

- Você está fazendo um sol azul !  mas não existe sol azul ! (Neste caso a coordenadora interfere:
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- O sol azul passa a existir no desenho dela. Esta é a grande vantagem de trabalhar com as cores. Fazemos do modo que queremos. A imaginação de cada um é que deve valer. - Então posso pintar o céu do meu desenho de cor de rosa? - claro que pode !!!As crianças interagem uma com as outras,  a troca de idéias enriquecem os trabalhos e desenvolvem o espírito de colaboração e de equipe.

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É muito importante que o coordenador tenha bastante cautela ao interferir no trabalho infantil, ficando atento para  que seus conceitos pessoais não tumultuem as fantasias infantis.

A “professora” de arte educação deverá estar apta a socializar as crianças, ensinando a melhor  técnica de exteriorizarem no papel seus desejos, fantasias e frustrações.  Nesta matéria, o professor tem muito mais a aprender do que ensinar.


Espero que os pais e professores possam ter compreendido melhor a importância da matéria, sua apreciação, seus conceitos e valores. Deixando a nossa  sensibilidade vir a tona,  enriquecendo-nos  com as novas formas de expressão infantil.

O trabalho plástico infantil  não deve ser premiado.Trabalhei em algumas entidades que insistiam nesta idéia. Diante disto, coordenei alguns concursos infantis,pois não me restava alternativa. O desenho e a pintura infantil não devem ser avaliados dentro de um espírito de competição.  A espontaneidade fica abalada, desvirtuando o rumo da criatividade. A imaginação criativa faz parte de um momento único e  não se manifesta sob coação. Nesta iniciativa, infelizmente,  só a empresa patrocinadora é que ganha, através da publicidade para que tal evento aconteça.

O compromisso de valorização no  trabalho  plástico infantil prejudica o amadurecimento da criança, que fica muito mais concentrada no trabalho "estético" do que nas suas sensações que poderiam ser exteriorizadas através dele. No fim das contas, o que se promoveu com a intenção de incentivar a arte, acaba  causando danos no amadurecimento psicológico da criança.

Diante  destas premissas, todas as crianças perdem, mesmo as que ganham.

Mesmo sendo coagida a coordenar  concursos anuais da IBM junto com o mam - museu de arte moderna de São Paulo - onde ministrei aulas, acabei chegando a um denominador comum: não dar apenas 3 prêmios mas distribuir a verba em 40 kits de pintura e sacolinhas de guloseimas para todos os participantes. Dez para cada etapa de idade.

Tive um aluno que ganhou uma bicicleta em um concurso de pintura. Abandonou completamente a matéria, deixando por ora de  frequentar as aulas.

Se as empresas quiserem valorizar  a arte através da  criatividade infantil, podem promover semanalmente  workshops em bairros distintos.  Não é preciso dar qualquer prêmio. O simples fato de a criança ter à sua disposição material de desenho e pintura já é um prêmio. Com certeza no futuro, esta iniciativa jamais será esquecida. Através desta atividade  a criança encontra ajuda para ultrapassar as  diversas etapas da sua vida.


Espero ter conseguido passar um pouco de tudo que aprendi com meus alunos.

Alguns trabalhos coloridos
(Tinta PVA Latex sobre cartolina branca.)

* As melhores pinturas são colados em pequenas chapas laminadas de madeira.

- Franulic, Arts Pop, Arte infantil no Museu da Casa Brasileira, Sociedade Harmonia de Tenis, Sesc Fabrica Pompéia, Curso de férias no Hotel Águas de São Pedro.

- Pintura e Desenho infantil  no mam - Museu de Arte Moderna de São Paulo, onde trabalhei por mais de sete anos. Entrevista no SPTV sobre as aulas e as exposições de pintura que finalizavam o ano. Gravado m fita de video K-

7.  Coordenação de três concursos de pintura e desenho infantil patrocínio IBM, em anos consecutivos. (International Business Machine).

- A convite do município de São Roque - Brasital -  coordenei  um  workshop  para  200 professores  da rede estadual e municipal de ensino.

 

Patricia Mattoso

patricia@pinturaedesenhoinfantil.com.br